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A infância não espera uma sentença

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Quem ainda se lembra de quanto durava um ano durante a infância?


Para um adulto, doze meses voam. Para uma criança, representam uma parcela considerável da própria vida. É tempo suficiente para aprender a ler, mudar de escola, construir amizades do zero, realizar inúmeras primeiras vezes e atravessar marcos fundamentais do desenvolvimento.


Litígios familiares podem se prolongar por anos. A infância acontece uma única vez.


Enquanto os adultos discutem os acontecimentos que deram origem ao conflito e rebatem suas versões dos fatos, a criança continua crescendo. E, nesse processo, vai construindo sua compreensão sobre si mesma, sobre as pessoas que ama e sobre o lugar que ocupa dentro da família (Bronfenbrenner, 1996; Papalia,Feldman, 2013).


É importante lembrar que a separação dos pais não determina, por si só, prejuízos ao desenvolvimento. O que preocupa não é a separação em si, mas a manutenção, ao longo do tempo, de formas destrutivas de lidar com os conflitos. Quanto mais intensa e prolongada for a disputa, maior a probabilidade de que a criança seja envolvida em questões que não lhe pertencem (Cummings, Davies, 2010).


Nem sempre isso acontece de forma explícita.


Às vezes aparece em comentários na frente dos filhos. Em outras situações, surge quando um dos pais busca compreensão, apoio ou validação emocional na criança. Também pode ocorrer quando ela passa a ter acesso a informações (e preocupações) que cabem aos adultos, diante das quais não dispõe nem das competências nem dos recursos necessários para assimilar, enfrentar ou resolver.


Na maioria das vezes, não há intenção de causar dano. Muitos pais estão sofrendo e acreditam estar protegendo seus filhos ao compartilhar suas percepções sobre o outro e sobre o conflito. 


O problema é que as questões da (ex)conjugalidade (as quais, na Psicologia Sistêmica, apelidamos de “andar de cima”) e o exercício da parentalidade (o “andar de baixo” não devem se misturar.


Quando os conflitos remanescentes do ex-casal invadem a relação parental, a criança frequentemente passa a ocupar lugares que não correspondem à sua condição de ser em desenvolvimento.


A literatura sistêmica descreve diferentes formas pelas quais isso pode acontecer. Algumas crianças tornam-se intermediárias da comunicação entre os pais, pequenos mediadores. Outras passam a acreditar que são responsáveis pelo sofrimento dos adultos, assumindo suas dores. Há também aquelas que passam a monitorar constantemente o ambiente familiar, tentando antecipar tensões e evitar novos conflitos (Bowen, 1978; Minuchin, 1982; Boszormenyi-Nagy, Spark, 1983).


Pouco a pouco, elas aprendem a perceber as necessidades dos outros antes mesmo de reconhecer as próprias.


O conflito de lealdades talvez seja uma das experiências mais dolorosas produzidas por esse contexto. A criança ama ambos os pais. Reconhece em si características dos dois. Sua história é construída a partir desses vínculos.


Quando percebe que demonstrar afeto por um deles pode desagradar o outro, surge um impasse impossível de resolver. Não existe uma escolha que não produza sofrimento.


O problema não está apenas na relação com os genitores. Em alguma medida, a criança também passa a sentir que precisa se afastar de partes de si mesma.


É comum que, nesses contextos, surja a criança considerada madura para a idade. Aquela que compreende demais, que raramente dá trabalho, que parece forte diante de situações difíceis.


Nem sempre essa maturidade representa um processo saudável de amadurecimento.


A psicóloga Alice Miller (1997) chamou atenção para crianças que aprendem muito cedo a perceber expectativas, tensões e estados emocionais dos adultos. Elas se tornam especialmente competentes para adaptar seus comportamentos ao ambiente. O preço dessa adaptação, porém, pode ser o sacrifício das suas próprias necessidades.


O desenvolvimento acontece de forma gradual.


Nenhuma criança nasce preparada para compreender conflitos familiares complexos, lidar com versões contraditórias dos fatos e regular suas próprias emoções - quanto menos as dos pais. Essas capacidades são construídas gradualmente, à medida que o desenvolvimento avança e a criança encontra as condições necessárias para exercitá-las e aprimorá-las.


As Neurociências reforçam essa compreensão. Habilidades relacionadas ao controle emocional, à tomada de decisões e à avaliação de consequências permanecem em desenvolvimento durante boa parte da infância e da adolescência (Anderson, 2002; Diamond, 2013).


Por isso, o fato de uma criança conseguir se adaptar a determinada situação não significa que ela esteja preparada para vivê-la a despeito das consequências.


Proteger a infância não significa eliminar todas as dificuldades da vida. Frustrações fazem parte do desenvolvimento. Conflitos também.


A discussão é outra.


Existe uma diferença importante entre enfrentar desafios compatíveis com a própria etapa de desenvolvimento e ser convocada, subjetivamente, a assumir responsabilidades que pertencem apenas aos adultos.


Crianças precisam de espaço para construir vínculos, experimentar pertencimento, errar, depender dos outros e, gradualmente, crescer. Precisam poder amar ambos os pais sem sentir culpa por isso.


Enquanto audiências são remarcadas, recursos apresentados e decisões aguardam julgamento, o desenvolvimento segue atravessando etapas fundamentais.


E justamente porque a infância não pode ser interrompida nem deixada para depois, merece permanecer no centro das atenções de todos os envolvidos nessas lides.


Porque, ao final, os conflitos entre os adultos podem durar o tempo que for. A oportunidade de ser criança, não.



REFERÊNCIAS

ANDERSON, Peter. Assessment and development of executive function during childhood. Child Neuropsychology, v. 8, n. 2, p. 71–82, 2002.

BOSZORMENYI-NAGY, Ivan; SPARK, Geraldine M. Invisible loyalties: reciprocity in intergenerational family therapy. New York: Brunner/Mazel, 1983.

BOWEN, Murray. Family therapy in clinical practice. New York: Jason Aronson, 1978.

BRONFENBRENNER, Urie. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

CUMMINGS, E. Mark; DAVIES, Patrick T. Marital conflict and children: an emotional security perspective. New York: Guilford Press, 2010.

DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135–168, 2013.

MILLER, Alice. O drama da criança bem-dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo: Summus, 1997.

MINUCHIN, Salvador. Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

 
 
 

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